Produtor de limões com selo internacional é incluído na lista suja do trabalho escravo

Fiscalização flagra 20 trabalhadores, incluindo um adolescente, em condições degradantes em fazenda de Aparecida do Taboado

11 ABR 2025 Por Redação Jota FM 99.5 11h17

Um produtor de limões certificado por um dos principais selos internacionais de boas práticas agrícolas foi incluído na Lista Suja do trabalho escravo, atualizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nesta quarta-feira (9). O flagrante ocorreu em uma fazenda no município de Aparecida do Taboado, no Mato Grosso do Sul, onde 20 pessoas , incluindo um adolescente, foram resgatadas em condições análogas à escravidão.


Segundo os fiscais, os trabalhadores atuavam na colheita do limão sem registro em carteira, sem equipamentos de proteção e foram, inicialmente, alojados por nove dias em um curral sem banheiros, com cobertura apenas no telhado. Em seguida, foram levados para um galpão na área urbana de Aparecida do Taboado, onde dormiam em camas amontoadas, com péssima ventilação e instalações sanitárias precárias — sem chuveiros e com água fria saindo de um cano.


"Teve bastante menino que adoeceu", relatou um dos trabalhadores. Outro afirmou que chegou a pedir dinheiro à esposa para comprar comida. A jornada começava em jejum, e refeições eram limitadas ao almoço e jantar. Um trabalhador ferido por espinhos chegou a ficar dois dias sem atendimento médico, só sendo levado ao hospital após protesto dos colegas. No hospital, foi instruído a mentir, dizendo que não estava trabalhando.
Durante a fiscalização, o gerente do grupo tentou esconder o alojamento e orientar os trabalhadores a fugirem, mas eles se recusaram. A operação resultou em 22 autuações, incluindo irregularidades no armazenamento de agrotóxicos e nas instalações elétricas da fazenda e dos alojamentos.


O produtor era detentor de certificação GlobalG.A.P, que atesta boas práticas agrícolas em mais de 135 países, com ênfase em sustentabilidade e bem-estar dos trabalhadores. Apesar do flagrante ter ocorrido em fevereiro de 2024, a certificação só foi retirada do portal após a divulgação do caso pela imprensa. A organização alegou que o selo continuava visível por um “problema técnico” e afirmou que “atos criminosos estão fora do escopo de todos os sistemas de certificação”.


O caso também levou o Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso do Sul (MPT-MS) a ajuizar uma Ação Civil Pública com pedido de R$ 4,7 milhões por danos morais coletivos e individuais, acusando o empregador de agir com dolo para obter lucro com base na exploração de mão de obra.
Mesmo após a denúncia, a empresa associada ao produtor continuou divulgando nas redes sociais limões com certificação ativa e voltados à exportação, especialmente para países da Europa. Dados alfandegários confirmam que a empresa já forneceu frutas para grandes distribuidoras como a britânica Four Seasons Harvest (ligada ao grupo Dole) e a holandesa Jaguar The Fresh Company. Ambas as distribuidoras negaram envolvimento com os lotes da fazenda investigada, embora a Jaguar tenha aberto uma apuração interna.


Os trabalhadores relataram ter sido recrutados com promessas de salários acima da média em Paranaíba, cidade vizinha a Aparecida do Taboado. “Quando surge uma oportunidade de ganhar um pouco mais, a gente se interessa. Mas não sabíamos que seria assim”, lamentou um dos resgatados.

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