A Câmara Municipal de Campo Grande aprovou nesta terça-feira (11) o tombamento das tradicionais barracas de Anhanduí como patrimônio cultural do município. A medida ocorre em meio à preocupação dos comerciantes com uma possível retirada dos pontos de venda devido à duplicação da BR-163. O comércio às margens da rodovia é fonte de renda para famílias que vendem produtos artesanais e alimentos produzidos na região.
O Projeto de Lei 12.252/26 determina a inscrição das barracas no Livro de Tombo Histórico, Etnográfico e Paisagístico de Campo Grande. O texto reconhece os pontos comerciais como bens de interesse histórico, social, econômico e cultural. A proposta é de autoria do vereador André Salineiro (PL).
O tombamento não prevê transferência de propriedade, desapropriação ou indenização automática aos comerciantes. O projeto também permite que o município desenvolva ações de valorização cultural, turística e econômica das barracas. Entre as possibilidades estão políticas de fomento, capacitação e apoio aos trabalhadores, conforme a disponibilidade orçamentária.
A possibilidade de retirada dos comerciantes ganhou força com a retomada das discussões sobre a duplicação da BR-163. Em dezembro de 2025, representantes de uma empresa contratada pela concessionária Motiva Pantanal fizeram levantamentos sobre as barracas e buscaram informações sobre trabalhadores, produtos vendidos e tempo de funcionamento dos estabelecimentos.
Na época, a concessionária informou que não havia decisão sobre retirada ou realocação dos comerciantes. O trabalho realizado era tratado como um diagnóstico inicial para compreender a realidade econômica e social da comunidade. A empresa também afirmou que qualquer discussão sobre o tema envolveria o Governo do Estado e a Prefeitura de Campo Grande.
A preocupação foi discutida em audiência pública realizada pela Câmara em fevereiro deste ano, no próprio distrito de Anhanduí. Cerca de 150 comerciantes, familiares e fornecedores participaram do encontro e relataram que a atividade representa a principal fonte de renda de diversas famílias. Os trabalhadores também apontaram a dificuldade de encontrar outras oportunidades de emprego no distrito.
Os comerciantes afirmam que boa parte das vendas depende do movimento da BR-163. Caminhoneiros e outros viajantes costumam parar nas barracas durante os deslocamentos pela rodovia. Por isso, os trabalhadores temem que uma eventual transferência para uma área distante da pista reduza o número de clientes e comprometa a atividade.
Os pontos comerciais são conhecidos pela venda de doces caseiros, conservas, pimentas, embutidos e outros produtos artesanais. Algumas famílias estão ligadas ao comércio há décadas e há casos em que as barracas foram passadas de uma geração para outra. Produtores rurais da região também fornecem mercadorias diretamente aos estabelecimentos.
A preocupação com uma possível retirada não é recente e já havia sido discutida em 2015, quando a concessão da BR-163 ainda estava sob responsabilidade da CCR MSVia. O tema chegou a ser debatido na Câmara naquele período, mas não avançou. Com a retomada do projeto de duplicação, os comerciantes voltaram a discutir alternativas para manter os pontos de venda.
Com a aprovação do projeto nesta terça-feira, as barracas passam a ter reconhecimento como patrimônio cultural municipal. A medida, porém, não impede por si só futuras discussões sobre intervenções na rodovia ou eventual adequação dos pontos às regras de segurança viária. O futuro dos comerciantes dependerá também das definições relacionadas ao projeto de duplicação da BR-163.
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