O Brasil vive uma mudança demográfica que já começa a transformar as prioridades das políticas públicas. Pela primeira vez, a população com 60 anos ou mais supera proporcionalmente o grupo de jovens entre 15 e 24 anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os idosos representavam 15,6% da população em 2023, enquanto os jovens correspondiam a 14,8%.
Em pouco mais de duas décadas, a participação dos idosos praticamente dobrou. Entre 2000 e 2023, o percentual de brasileiros com 60 anos ou mais passou de 8,7% para 15,6%. Em números absolutos, a população idosa saltou de 15,2 milhões para aproximadamente 33 milhões de pessoas.
Em Mato Grosso do Sul, são cerca de 391,1 mil pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a aproximadamente 14% da população estadual. O número representa crescimento de 63% na última década e reforça a necessidade de ampliar políticas voltadas ao envelhecimento.
É neste cenário que Mato Grosso do Sul realiza, entre 25 de setembro e 1º de outubro, a Semana Estadual da Pessoa Idosa. A mobilização foi instituída pela Lei Estadual nº 4.796/2015 e integra o Calendário Oficial de Eventos do Estado.
Durante o período, são promovidas palestras, atividades físicas e mentais, atendimentos, exames e cursos. A proposta também é ampliar a conscientização sobre a importância da experiência dos idosos e estimular a sociedade a reconhecer o papel dessa parcela da população.
Para a subsecretária de Políticas Públicas para a Pessoa Idosa de Mato Grosso do Sul, Larissa Diniz Paraguassu, a semana é importante para colocar o envelhecimento no centro das discussões, mas as ações precisam ocorrer durante todo o ano.
“Nosso desafio é fazer com que a sociedade compreenda que envelhecer com dignidade é um direito e que o enfrentamento ao idadismo e às violências é responsabilidade de todos nós”, afirma.
Segundo Larissa, uma das prioridades da Subsecretaria é fortalecer as políticas públicas nos municípios. Ela cita o programa Envelhecer é Legal, que busca apoiar as cidades na estruturação das políticas para a população idosa, com planejamento, formação de equipes, fortalecimento dos conselhos e desenvolvimento de ações voltadas à garantia de direitos.
A subsecretária também chama atenção para as diferentes formas de violência contra os idosos. Além das agressões físicas, estão entre os problemas a negligência, violência psicológica, patrimonial, financeira e institucional, além de manifestações de idadismo no cotidiano.
Outra frente de atuação envolve a formação continuada de gestores, técnicos e conselheiros, além de iniciativas de inclusão e letramento digital. O programa Conectando Gerações busca ainda estimular a convivência entre diferentes faixas etárias.
Para Larissa, o envelhecimento não deve ser associado apenas à vulnerabilidade. A política pública, segundo ela, precisa considerar autonomia, independência, participação social e protagonismo.
“O aumento da longevidade é uma conquista da sociedade. O nosso desafio, enquanto poder público, é fazer com que viver mais também signifique viver com direitos, respeito, autonomia e dignidade”, destaca.
Acolhimento muda rotina de idosos em Campo Grande
Em Campo Grande, iniciativas da sociedade civil também procuram combater o isolamento e ampliar a qualidade de vida da população idosa. No bairro Tiradentes, o Instituto Caminhos da Justiça Social atende cerca de 100 idosos com atividades físicas e mentais, terapia, cursos e convivência.
O trabalho é coordenado pela assistente social Cláudia Regini Ricardo, que começou visitando algumas idosas acamadas que não recebiam visitas. Com o aumento da procura, os atendimentos cresceram e foi necessário alugar um espaço para receber os participantes.
Segundo Cláudia, muitos idosos atendidos possuem família, mas permanecem sozinhos durante boa parte do dia porque os parentes trabalham.
“A maioria pede atenção. Os mais próximos não têm paciência com eles, não conseguem ouvir uma história”, relata.
Entre os participantes está Josefa Maria de Souza, de 74 anos, que passou a frequentar o instituto depois da morte do filho único e de enfrentar um período de depressão. Ela afirma que encontrou no espaço apoio para superar o momento difícil.
“Tenho família, mas aqui é onde me sinto em casa”, conta.
Heloísa Menezes, de 63 anos, também participa regularmente das atividades. Para ela, o convívio com outras pessoas ajuda a manter a disposição e a alegria.
“Aqui uma ajuda a outra. Todas conversamos, temos alegria de viver”, afirma.
O instituto também recebe famílias. Marcilene de Oliveira, de 46 anos, acompanha a sogra, Maria Matilde dos Santos, de 81 anos. Dona Maria participa de cursos de crochê e bordado, além das atividades físicas e terapias.
“Fiz muitas amizades”, conta.
Entre os homens atendidos está José Dias Furtado, de 77 anos. Cadeirante, ele trabalhou durante toda a vida em uma fazenda e, depois de ficar separado da esposa e enfrentar problemas de saúde, mudou-se para Campo Grande. Após passar a viver sozinho, conheceu o trabalho desenvolvido por Cláudia.
“Recebi muita ajuda. Hoje aqui é minha casa. Aqui é vida, minha morada”, relata.
O Instituto Caminhos da Justiça Social funciona de segunda a sexta-feira, das 13h às 17h, na Rua Diva Ferreira, 852, no bairro Tiradentes. As atividades são gratuitas e o espaço é mantido por meio de doações.
Com o aumento da população idosa, iniciativas públicas e comunitárias ganham importância diante de uma transformação que já faz parte da realidade brasileira. O desafio passa não apenas por garantir atendimento à população que envelhece, mas também por assegurar autonomia, participação social, respeito e dignidade ao longo da vida.

Idosas atendidas no Instituto Caminhos da Justiça Social Luciana Nassar
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