Duas décadas após transformar a forma como o Estado brasileiro enfrenta a violência contra as mulheres, a Lei Maria da Penha chega aos 20 anos com avanços reconhecidos, mas também com desafios que mantêm o tema no centro das discussões nacionais.
Esse foi o ponto de partida da 20ª Jornada Lei Maria da Penha, aberta na manhã de quinta-feira (27), em Campo Grande. Promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com apoio do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) e do Governo do Estado, o evento segue até sexta-feira (28).
A jornada reúne autoridades, magistrados, integrantes do sistema de Justiça, representantes da rede de proteção, pesquisadores e especialistas de diferentes regiões do país. Realizado anualmente desde 2007, o encontro se consolidou como um dos principais espaços nacionais de discussão sobre estratégias para prevenir e combater a violência contra as mulheres.
A programação teve início no Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camillo, com debates sobre os avanços proporcionados pela legislação e os desafios ainda enfrentados pelo poder público, especialmente nas áreas de prevenção, proteção das vítimas, responsabilização dos agressores e acesso à Justiça.
A abertura foi marcada pela apresentação da Orquestra Indígena de Campo Grande, formada por integrantes da Aldeia Darcy Ribeiro. Em seguida, foi formada a mesa de autoridades, com representantes do Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e entidades da magistratura.
Estado é citado como referência
Durante a abertura, o presidente do TJMS, desembargador Dorival Renato Pavan, destacou o pioneirismo de Mato Grosso do Sul na criação de políticas e estruturas voltadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres.
Segundo ele, Campo Grande foi escolhida para sediar a jornada também pela trajetória construída pelo Estado na área. Pavan lembrou que a Capital abriga a primeira Casa da Mulher Brasileira do país e que Mato Grosso do Sul também foi pioneiro na criação de uma Vara de Medidas Protetivas.
“Foi aqui que surgiu a primeira Casa da Mulher Brasileira do país, em Campo Grande. Foi aqui também instalada a primeira Vara de Medidas Protetivas do Brasil. Essa trajetória não aconteceu por acaso. É resultado de uma construção institucional que vem sendo conduzida há anos no Tribunal de Justiça”, afirmou.
O desembargador ressaltou, porém, que o enfrentamento da violência não pode depender exclusivamente do Judiciário. Para ele, a vítima precisa ter acesso a uma rede articulada que envolva segurança, saúde, assistência social, orientação e condições econômicas para romper o ciclo de violência.
“A mulher que sofre violência não precisa apenas de uma decisão judicial. Ela precisa de segurança, saúde, assistência, orientação, acolhimento e, muitas vezes, de condições econômicas e sociais para romper o ciclo de violência”, declarou.
Pavan também defendeu uma atuação voltada à reconstrução da vida das vítimas. “Quando uma mulher procura o Estado em busca de proteção, ela não está pedindo um favor. Ela está exercendo um direito”, afirmou.
Desembargadora alerta para mortes
A conselheira do CNJ e desembargadora do TJMS Jaceguara Dantas destacou que os 20 anos da Lei Maria da Penha representam um período de avanços importantes, mas não suficiente para eliminar a violência contra as mulheres.
Segundo ela, a legislação ajudou a estruturar mecanismos de proteção e contribuiu para salvar vidas, mas a permanência de assassinatos e outras formas de violência demonstra que ainda há um longo caminho pela frente.
“É inegável o reconhecimento dos avanços propiciados pela Lei Maria da Penha e de que ela tem salvado muitas vidas. Mas, ao lado desses avanços, é forçoso reconhecer que nós temos muitos desafios, dentre eles o fato de que as mulheres continuam morrendo”, afirmou.
Jaceguara também ressaltou que a violência de gênero ultrapassa a agressão física e pode atingir a integridade psicológica, material, sexual e moral das vítimas.
Para ela, o problema precisa ser tratado como uma questão que envolve a própria democracia e os direitos fundamentais.
“Enquanto somos mais da metade da população brasileira e vivemos com medo, com a violência e com o risco real e iminente de morrer, não é possível falar em democracia”, declarou.
Prevenção passa pela educação
Além das medidas de proteção e responsabilização dos agressores, a conselheira defendeu o fortalecimento de políticas preventivas, especialmente na educação.
Na avaliação de Jaceguara, mudanças culturais são necessárias para enfrentar as raízes da violência de gênero e construir relações baseadas no respeito e na igualdade.
“Além da repressão, nós precisamos trabalhar com a vertente da prevenção. Precisamos trabalhar com a educação. Eu acredito no potencial transformador da educação, baseada numa cultura de paz, de tolerância, de respeito e de igualdade”, afirmou.
Ela resumiu a necessidade de transformar indignação em medidas concretas: “Para além da indignação que todas e todos temos, nós precisamos de ação”.
Jornada segue nesta sexta-feira
A programação da 20ª Jornada Lei Maria da Penha continua nesta sexta-feira (28), com painéis e oficinas sobre prevenção da violência, proteção das vítimas, julgamento com perspectiva de gênero, fortalecimento da rede de atendimento e ampliação do acesso à Justiça.
Os debates também abordam situações específicas vivenciadas por mulheres negras, indígenas, fronteiriças e em situação prisional, além de temas relacionados aos custos da violência, justiça plural e direitos das mulheres.
Ao final do encontro, os participantes devem discutir e aprovar a Carta da 20ª Jornada Lei Maria da Penha, documento que reunirá propostas e encaminhamentos para fortalecer as políticas públicas e a atuação do sistema de Justiça no enfrentamento à violência contra as mulheres.
Parte das atividades será realizada no Plenário do TJMS, onde também está prevista a instituição do Eixo Permanente de Enfrentamento à Violência contra Meninas e Mulheres do Observatório dos Direitos Humanos.

Presidente do TJMS, desembargador Dorival Renato PavanDivulgação
ALEMSAssociação de Costa Rica recebe título de Utilidade Pública Estadual
AGENDA CULTURALFlamenco toma conta da Morada dos Baís nesta sexta
EMPREENDEDORISMO FEMININOSebrae divulga finalistas do Prêmio Mulher de Negócios 2026
RECONHECIMENTO NACIONALMS vence prêmio nacional com programa de combate à pobreza