Violência contra indígenas Guarani Kaiowá inclui mortes e ameaça de envenenamento em MS

Denúncias relatam tentativas de assassinato, intimidações e risco à água consumida pelas comunidades, órgãos federais cobram investigações

30 OUT 2026 Por Hyan Martins 07h45

Comunidades indígenas da etnia Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, denunciaram uma série de episódios de violência registrados após as eleições presidenciais. Os relatos incluem tentativas de assassinato, agressões, intimidações e uma ameaça de envenenamento da água utilizada pelos moradores. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), pelo menos cinco casos de assassinatos de indígenas na região, desde sábado (24), estão sob investigação.

O coordenador do Cimi em Mato Grosso do Sul, Matias Benno Rempel, afirmou que os episódios de intimidação também ocorreram durante o período eleitoral. Segundo ele, caminhonetes circularam pelos territórios indígenas e houve agressões contra moradores. As ações teriam como objetivo provocar medo e impedir que integrantes das comunidades comparecessem às urnas.

Rempel destacou que os episódios não representam um fenômeno isolado ou restrito ao período eleitoral. Para ele, a violência contra os Guarani Kaiowá faz parte de um cenário recorrente de conflitos no campo. O coordenador afirmou que as recentes denúncias deram maior visibilidade a uma situação enfrentada continuamente pelas comunidades.

Entre os casos encaminhados para investigação está o atropelamento proposital de um indígena em Coronel Sapucaia, município localizado na fronteira com o Paraguai. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) acionaram o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal. As entidades pedem a apuração das denúncias e a responsabilização dos envolvidos.

Dados da Apib apontam que seis indígenas Guarani Kaiowá foram assassinados em Mato Grosso do Sul entre 2022 e 2026. O levantamento evidencia a ocorrência de mortes ao longo dos últimos anos no estado. As novas denúncias ampliaram a cobrança por medidas de proteção às comunidades.

Ameaça contra a água

Outra denúncia recebida pelo Ministério Público Federal envolve uma suposta ameaça de contaminação da água consumida por indígenas em Tacuru, no extremo sul do estado. A gravação de um áudio atribuído a um funcionário da prefeitura do município contém declarações sobre envenenar a água como forma de retaliação aos indígenas que votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na gravação, o homem afirma: “ponha veneno na água, matar essas praga na água”.

O coordenador do departamento jurídico da Apib, Ricardo Terena, explicou que as comunidades enfrentam dificuldades de acesso à água. Segundo ele, os moradores dependem do abastecimento realizado por caminhões-pipa. Após a circulação do áudio, parte dos indígenas deixou de consumir a água distribuída por receio de contaminação.

Diante da denúncia, o MPF em Mato Grosso do Sul estabeleceu prazo de 24 horas para que a Prefeitura de Tacuru apresente esclarecimentos. O município deverá informar se a gravação é autêntica, identificar o possível autor das ameaças e detalhar as providências adotadas. A investigação também busca verificar as circunstâncias e a gravidade das declarações.

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