Mato Grosso do Sul completa neste domingo, 11 de outubro, 49 anos de criação. Uma história que começou muito antes da assinatura de uma lei, atravessou conflitos políticos, interesses econômicos e movimentos populares, até transformar um antigo sonho de autonomia em realidade.
Em 11 de outubro de 1977, o então presidente da República, general Ernesto Geisel, sancionou a Lei Complementar nº 31, que dividiu Mato Grosso e criou oficialmente Mato Grosso do Sul. A instalação administrativa do novo Estado ocorreria em 1º de janeiro de 1979, tendo Campo Grande como capital.
Quase meio século depois, o território que nasceu da divisão se consolidou como um importante centro de produção agropecuária, industrial e de serviços do Brasil. Mas a caminhada não foi feita apenas de conquistas. Houve dificuldades, disputas políticas e problemas sociais que ainda desafiam a população.
O movimento que nasceu muito antes de 1977
A ideia de separar o sul de Mato Grosso da região norte começou a ganhar força ainda no final do século XIX.
Naquele período, Mato Grosso ocupava uma área imensa, com grandes distâncias entre as cidades e dificuldades de comunicação e transporte. A administração estadual estava concentrada em Cuiabá, enquanto a região sul desenvolvia características econômicas, sociais e culturais próprias.
Um dos primeiros movimentos organizados ocorreu em 1892, na região de Corumbá, com a formação do Partido Autonomista. Lideranças locais questionavam a concentração de poder político e defendiam maior autonomia administrativa.
Nas décadas seguintes, as diferenças regionais ficaram mais evidentes.
Enquanto Cuiabá mantinha vínculos históricos com a mineração, a navegação fluvial e a ocupação do norte, a economia sulista crescia principalmente com a pecuária, a erva-mate, o comércio e, posteriormente, a agricultura.
A chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, no início do século XX, fortaleceu Campo Grande como centro comercial e ponto de ligação com São Paulo.
O crescimento econômico aumentou o desejo de decisões políticas mais próximas das necessidades da região.
A Revolução de 1932 e a primeira tentativa de criar um Estado
Um capítulo decisivo aconteceu em 1932, durante a Revolução Constitucionalista.
Parte das lideranças e forças militares do sul de Mato Grosso apoiou o movimento paulista contra o governo de Getúlio Vargas.
Nesse contexto, foi proclamado o chamado Estado de Maracaju, com capital em Campo Grande e Vespasiano Martins à frente de sua administração.
A experiência durou poucos meses e terminou com a derrota do movimento constitucionalista. Não chegou a se consolidar como um Estado reconhecido pela União, mas fortaleceu a ideia de separação.
Ainda em 1932, surgiu a Liga Sul-Mato-Grossense, que passou a defender a divisão de maneira organizada, reunindo lideranças políticas e representantes de diferentes setores da sociedade.
O movimento produziu documentos, manifestações e reivindicações encaminhadas às autoridades nacionais, inclusive durante os debates constitucionais de 1934 e 1946.
A divisão, entretanto, continuaria sendo discutida por décadas.
Por que Mato Grosso foi dividido?
A separação não aconteceu por um único motivo.
Existiam razões administrativas, econômicas, culturais e políticas. A distância entre os municípios, os problemas de infraestrutura e as diferenças entre os modelos de desenvolvimento alimentavam o debate.
Para os defensores da divisão, o novo Estado permitiria aplicar recursos públicos com maior proximidade das comunidades, criar instituições próprias e acelerar investimentos.
Mas a decisão final também teve forte influência do governo militar.
Na década de 1970, o governo federal considerava estratégica a ocupação e a organização administrativa do Centro-Oeste, especialmente em razão das extensas fronteiras internacionais e do potencial econômico da região.
Foi nesse ambiente que o presidente Ernesto Geisel decidiu encaminhar ao Congresso Nacional o projeto de criação de Mato Grosso do Sul.
Portanto, a divisão reuniu duas forças: uma reivindicação regional antiga e os interesses estratégicos do governo federal. A decisão ocorreu durante a ditadura militar, sem consulta direta da população por plebiscito.
O dia em que o sonho virou realidade
Em 11 de outubro de 1977, representantes políticos e lideranças da região sul viajaram a Brasília para acompanhar a cerimônia de assinatura da Lei Complementar nº 31.
O ato foi acompanhado por autoridades e representantes do antigo Mato Grosso. Para os divisionistas, representava a realização de uma reivindicação de várias gerações.
Em Campo Grande, a notícia provocou manifestações e comemorações. Estudantes e moradores foram às ruas celebrar a criação do novo Estado.
Mas o sentimento não foi igual em todas as regiões. Em Cuiabá, houve preocupação com a perda de território, poder político e perspectivas econômicas. Mesmo no sul, existiam divergências sobre o processo e a organização da nova unidade federativa.
A divisão estava definida. Começava, então, a tarefa de construir um Estado praticamente do zero em termos administrativos.
Os primeiros anos: dificuldades e instabilidade política
Mato Grosso do Sul foi instalado oficialmente em 1º de janeiro de 1979.
O primeiro governador foi Harry Amorim Costa, engenheiro nomeado pelo presidente Ernesto Geisel. Sua passagem pelo governo foi curta, terminando em junho do mesmo ano.
O novo Estado enfrentou disputas entre grupos políticos, mudanças no comando do Executivo e dificuldades naturais da montagem de sua estrutura administrativa.
Depois de Harry Amorim Costa, vieram Marcelo Miranda Soares e Pedro Pedrossian, com períodos de interinidade de Londres Machado.
As sucessivas mudanças evidenciaram um dos primeiros problemas da autonomia: a divisão territorial não significava, automaticamente, estabilidade política nem renovação das lideranças.
Em 1982, a população elegeu Wilson Barbosa Martins como primeiro governador escolhido pelo voto direto, em uma etapa importante da consolidação democrática estadual.
A estruturação do Judiciário, da Assembleia Legislativa, dos órgãos públicos e dos serviços estaduais ajudou a transformar a autonomia prevista em lei em instituições permanentes.
O que deu certo depois da divisão
Um dos resultados mais importantes foi a capacidade de Mato Grosso do Sul organizar suas próprias políticas administrativas e ampliar sua presença institucional pelo território.
Com o passar dos anos, a economia estadual ganhou força, impulsionada pela pecuária, pela agricultura mecanizada e, posteriormente, pela instalação de agroindústrias.
A produção de soja, milho, carne bovina, aves, suínos, açúcar, etanol e celulose passou a movimentar a economia de diversas regiões.
Três Lagoas se transformou em um dos grandes polos industriais de celulose do país. Ribas do Rio Pardo ganhou destaque com novos investimentos no setor, enquanto municípios como Dourados, Sidrolândia, Maracaju, Chapadão do Sul, Naviraí e São Gabriel do Oeste ampliaram suas atividades agrícolas, comerciais e industriais.
Campo Grande consolidou sua posição como centro administrativo, universitário, comercial e de prestação de serviços.
O turismo também se tornou um importante diferencial. O Pantanal, Bonito, a Serra da Bodoquena e outros atrativos naturais projetaram Mato Grosso do Sul nacional e internacionalmente.
De acordo com o IBGE, o Estado contava com 2.757.013 habitantes no Censo de 2022, distribuídos em 79 municípios.
Essas transformações mostram a dimensão do crescimento econômico e territorial alcançado desde a criação do Estado.
O que não deu certo — e o que ainda precisa melhorar
Apesar do desenvolvimento, algumas promessas ligadas à divisão ainda não foram plenamente realizadas.
A criação de uma administração própria não eliminou as desigualdades entre as regiões. A concentração de serviços especializados em Campo Grande e em alguns municípios maiores continua obrigando moradores do interior a percorrer longas distâncias para conseguir determinados atendimentos.
Também permanecem dificuldades relacionadas à infraestrutura, à conservação de estradas, ao saneamento, à qualidade da educação e à distribuição de oportunidades econômicas.
Outra questão importante é a concentração da riqueza. O avanço da produção agropecuária e industrial não significa, necessariamente, que seus benefícios cheguem na mesma proporção a todos os trabalhadores e comunidades.
Há ainda conflitos fundiários históricos, especialmente envolvendo direitos territoriais indígenas, além de desafios ligados à preservação ambiental.
O Pantanal, um dos maiores patrimônios naturais do planeta, enfrenta ameaças recorrentes provocadas por secas, incêndios e pressões sobre os recursos naturais.
Esses problemas mostram que o crescimento econômico precisa estar acompanhado de políticas públicas capazes de melhorar efetivamente a vida da população.
As dificuldades que Mato Grosso do Sul conseguiu superar
A estruturação do novo Estado exigiu organizar órgãos públicos, estabelecer regras administrativas, construir instalações e definir competências institucionais.
Mesmo atravessando crises econômicas nacionais, disputas políticas e períodos de instabilidade, Mato Grosso do Sul conseguiu consolidar seu funcionamento administrativo.
A ampliação de universidades, hospitais, serviços públicos, rodovias e estruturas produtivas contribuiu para integrar regiões e fortalecer os municípios.
A economia, antes muito dependente da pecuária tradicional, tornou-se mais diversificada, incorporando cadeias industriais, atividades florestais, comércio, logística, turismo e serviços especializados.
Foi uma transformação construída ao longo de décadas, com investimentos públicos e privados e, principalmente, com o trabalho de gerações de moradores.
Uma identidade construída por diferentes povos
A história sul-mato-grossense não pode ser contada apenas pelos políticos que defenderam a divisão.
Muito antes da criação do Estado, povos indígenas já habitavam esse território e construíam suas próprias histórias.
Ao longo do tempo, a presença de comunidades indígenas, populações negras, paraguaios, bolivianos e migrantes de diferentes regiões brasileiras ajudou a formar uma identidade cultural singular.
A música, a culinária, as festas populares, a vida nas fazendas, os costumes da fronteira e a relação com o Pantanal são partes dessa diversidade.
Reconhecer essa formação significa também valorizar quem muitas vezes ficou fora das fotografias oficiais e dos discursos políticos.
Aos 49 anos, o desafio é fazer o desenvolvimento chegar a todos
A criação de Mato Grosso do Sul foi uma conquista política importante para os defensores da autonomia regional.
A história mostrou que o novo Estado tinha condições de crescer, diversificar sua economia e construir instituições próprias.
Mas também demonstrou que uma divisão territorial, por si só, não resolve os problemas de uma sociedade.
Quase cinco décadas depois, Mato Grosso do Sul reúne grandes oportunidades, riqueza natural, produção econômica e diversidade cultural.
O maior desafio, agora, é transformar essa capacidade de crescimento em mais qualidade de vida, educação, saúde, infraestrutura e oportunidades para quem vive tanto na capital quanto nos municípios do interior.
Neste 11 de outubro, celebrar a criação de Mato Grosso do Sul é reconhecer o esforço de diferentes gerações, valorizar as conquistas alcançadas e compreender que o desenvolvimento precisa ser medido não apenas pela riqueza produzida, mas também pelo bem-estar de sua população.
Porque a verdadeira grandeza de um Estado está na qualidade de vida do seu povo.


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