O luto não tem prazo para terminar, e a cobrança para que uma pessoa supere rapidamente a morte de alguém querido pode aumentar o sofrimento. Em entrevista à Jota FM, a psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli, especialista em Lutos e Perdas, explicou como datas comemorativas, frases usadas para consolar e o afastamento de amigos e familiares podem dificultar o processo de quem enfrenta uma perda.
A conversa também abordou a influência das redes sociais e da inteligência artificial na preservação da memória de pessoas que morreram, os cuidados necessários para comunicar uma morte às crianças e as particularidades de perdas traumáticas, como suicídios. Autora do livro Sinto Muito, Raissa reuniu na obra reflexões construídas ao longo de mais de dez anos de atuação profissional, além de experiências pessoais relacionadas à morte.
Datas comemorativas e o tempo do luto
Segundo a psicóloga, datas como o Dia de Finados, Natal e Dia das Mães podem tornar a ausência mais difícil de enfrentar porque existe uma expectativa social sobre como as pessoas devem se comportar nesses períodos. A obrigação de comemorar ou demonstrar felicidade pode entrar em conflito com o sofrimento de quem perdeu alguém.
“Esses pactos sociais nos colocam numa obrigação de sentir felicidade, de comemorar ou de se entristecer. Então, isso dificulta muito a vida do enlutado, que tem que seguir em frente, que tem que tocar a vida dele, e esse dia chega e atrapalha”, explicou.
Raissa também destacou que não existe um prazo universal para o fim do luto. A dor está relacionada à ruptura provocada pela morte e pode permanecer ao longo da vida, mesmo quando a pessoa consegue retomar suas atividades e construir novos projetos.
“O luto não passa. O luto é para sempre, porque a dor do luto é a dor de uma ruptura: um mundo conhecido com uma vida conhecida”, afirmou.
A especialista mencionou ainda o transtorno do luto prolongado, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo ela, na realidade brasileira, espera-se que, depois de um ano, a pessoa tenha conseguido retomar parte da rotina, estabelecer planos e recuperar atividades profissionais, escolares e sociais. Isso não significa deixar de sentir saudade ou tristeza, mas conseguir reorganizar a vida.
Como acolher quem perdeu alguém
Um dos pontos abordados na entrevista foi a chamada “crueldade do consolo”. A expressão é usada por Raissa para descrever frases aparentemente bem-intencionadas, como “você precisa ser forte” e “foi melhor assim”, que podem desconsiderar o sofrimento de quem está de luto.
“O enlutado não precisa nada. Ele tem direito ao sofrimento dele, de se sentir mal, de chorar, de se entristecer, de ser fraco, entre aspas. Ele tem direito ao enlutamento. O luto é um trabalho muito duro”, disse.
Como alternativa, a psicóloga recomenda demonstrar preocupação e oferecer espaço para que a pessoa fale sobre o que está vivendo. Também considera importante não evitar o nome de quem morreu, já que o silêncio dos amigos e familiares pode deixar o enlutado sem pessoas com quem compartilhar lembranças.
“O enlutado lembra da pessoa que faleceu o tempo todo. Só que, depois de um tempo, ele fica sem ter com quem conversar, porque as pessoas acham que, quando uma pessoa morreu, qualquer coisa sobre aquela pessoa vai ser sobre a morte. Mas a gente precisa poder reverenciar a vida da pessoa, não a morte”, afirmou.
A especialista orientou que amigos e familiares observem mudanças na rotina e possíveis prejuízos na vida de quem está sofrendo. Dificuldades para trabalhar, abandono de atividades sociais e alterações significativas no comportamento podem indicar a necessidade de avaliação profissional. O tratamento pode envolver acompanhamento psicológico e, em alguns casos, medicação, sempre com indicação de um profissional especializado.
Redes sociais, inteligência artificial e mortes traumáticas
A presença de fotografias, homenagens e perfis de pessoas que morreram nas redes sociais também modifica a experiência do luto. Para Raissa, ferramentas de inteligência artificial que recriam a imagem ou a voz de alguém podem ter efeitos diferentes, dependendo da finalidade e da forma como são utilizadas.
“Se ele utiliza a inteligência artificial, dos robôs do luto, da página da pessoa que permanece lá ativa para negar a morte, então ele utiliza, vai criar um holograma, vai ficar fazendo imagens para se relacionar com a pessoa como se ela ainda estivesse aqui. A gente fala que isso é uma interferência ruim”, explicou.
Por outro lado, a psicóloga considera que esses recursos podem ajudar quando são utilizados para homenagear, construir memoriais e preservar a memória de quem morreu. Ela também ressaltou que mortes violentas, traumáticas ou em circunstâncias ainda não esclarecidas tendem a trazer dificuldades adicionais para quem fica, embora cada situação precise ser avaliada individualmente.
Como falar sobre a morte com crianças
Outro tema da entrevista foi a participação das crianças nos momentos de despedida. Raissa defende que elas sejam informadas sobre a morte com clareza, respeitando a idade e as crenças de cada família, mas sem esconder o que aconteceu ou utilizar expressões que possam gerar interpretações equivocadas.
“Precisa ser dito que ele morreu, faleceu. Que ele não vai estar mais presente, não vai mais voltar. As crianças fazem parte da família, elas precisam participar dos rituais funerários e de todo o trâmite que aquela família está passando”, afirmou.
A especialista também considera importante permitir que as crianças tenham a oportunidade de se despedir, inclusive quando são pequenas. Para ela, a comunicação deve ser verdadeira e direta, sem apresentar a morte como descanso ou como algo positivo.
Livro reúne reflexões sobre perdas e experiências pessoais
Durante a entrevista, Raissa também apresentou o livro Sinto Muito, que reúne crônicas, poemas e reflexões sobre o cotidiano, as redes sociais e a experiência de perder alguém. Com 132 páginas, a publicação foi construída ao longo de dez anos e tem linguagem acessível, voltada principalmente a pessoas enlutadas.
A relação da autora com a morte começou ainda na infância, quando viveu por alguns anos em uma funerária da família. Depois de se formar em Psicologia e Psicanálise, ela se especializou no atendimento a pessoas que enfrentam perdas e mantém há mais de dez anos um consultório voltado a essa área.
“Eu juntei todas essas memórias, essas reflexões e coloquei direcionado para o enlutado. Então, ele é um livro que não é técnico, ele tem uma linguagem acessível, simples, para falar com a pessoa enlutada, para dar ferramentas para nomear os sentimentos e as vivências dela”, explicou.
A autora descreve a publicação como uma companhia para quem enfrenta a ausência, inclusive para pessoas que não estão em tratamento psicológico, mas precisam de apoio. O livro pode ser adquirido pelo perfil @clinicadoluto, no Instagram, e pelo Mercado Livre. O consultório de Raissa fica no bairro Santa Fé, em Campo Grande.
O medo de falar sobre a morte
Ao final da conversa, a psicóloga também falou sobre o receio que muitas pessoas têm de frequentar cemitérios, velórios ou até passar perto de funerárias. Segundo ela, esse comportamento está relacionado à tentativa de manter a morte distante, como se evitar o assunto pudesse impedir que algo acontecesse.
“Existe uma cultura de negar a morte e a gente pensa que, quanto mais distante a gente permanecer dela, a gente está se protegendo [...] esse poder passa por negar a morte, se manter longe de tudo que for mórbido, de tudo que for fúnebre”, observou.
Para Raissa, reconhecer a presença da morte na vida é uma forma de lidar com uma realidade que não pode ser controlada. “É uma oportunidade da gente lidar com a alteridade da morte. Ela vai chegar para todo mundo, infelizmente”, concluiu.
Assista à entrevista completa:
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