Quase todo mundo sabe porque o oito de março é o Dia Internacional da Mulher. Quase todo mundo sabe que esta data tem como origem um movimento de operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque.
No dia oito de março de 1911 elas entraram em greve por melhores condições de trabalho e sofreram várias retaliações. No dia 25 daquele mês um incêndio na fábrica matou 125 das grevistas. Mas só 66 anos depois, em 1977, a organização das Nações Unidas oficializou a data como Dia Internacional da Mulher.
Era para ser apenas uma homenagem com eventos, festas, discursos, danças e sessões solenes de reverência. Porém, o oito de março deixou de ser festa e virou clamor. Sim, um clamor que junta indignação, coragem, resistência, brio, capacidade e vocação pela afirmação de humanidade para todas as pessoas.
Muito antes de 1911 as mulheres já lutavam em diversos países em defesa de seus direitos. Lutavam contra absurdos como a proibição de votar e ser votada. Lutavam contra as condições desumanas de trabalho, contra o assédio e a exploração sexual, contra a violência e a intimidação de sociedades tradicionalmente machistas.
O doloroso é saber que hoje, em pleno século 21, mais de 100 anos depois daquele incêndio criminoso nos Estados Unidos, as mulheres continuam sendo violentadas nas mais diversas formas. A sociedade machista e patriarcal criou gerações ensinando que o sexo feminino é o sexo frágil, inferior, a ser protegido e subjugado.
Ora, ora, ora. A Bíblia, há mais de dois mil anos, ensina aos cristãos que a mulher foi resultado de um sopro de Deus numa costela do homem. Um sopro que jamais deveria significar supremacia de gênero.
Nem justificar a humilhação. Deus concedeu a liberdade como dom a todos os seres que criou. E em havendo dom de todos, deve haver igualdade dos direitos. Não a igualdade em força física, até porque a capacidade de resistência da mulher equipara-se à do homem. A igualdade a que nos referimos é a igualdade pela justiça, pelos direitos comuns a todos os gêneros.
É lamentável que as estatísticas policiais e sociais ainda revelem uma enorme e pavorosa quantidade de práticas de abusos contra a mulher. Espancamentos, assassinatos, estupros, assédio e inferiorização nas condições de salário e trabalho são pragas comuns em nossos dias. São chagas sociais que precisam ser erradicadas pela sociedade das pessoas de bem.
Por isso, o Dia da Mulher precisa ser visto e tratado como Dia dos Seres Humanos, Dia de Clamor pela Justiça e pela Paz. Que se faça a festa, que se preste a homenagem às pessoas exemplares nesse contexto. Todavia, que os discursos sejam substituídos por ações práticas na lei e nas regras que movem a vida das pessoas, para que não seja necessário ter um dia de símbolo para lembrar aos humanos que a mulher é tão humana quanto o homem.
A necessidade do empoderamento feminino não é uma questão de vaidade, não é para satisfazer um capricho da mulher. É para estabelecer a justiça nas relações humanas; É para libertar a mulher da camisa-de-força imposta pelos modelos misóginos de sociedade. É para assegurar que todas as pessoas, independentemente de gênero, orientação sexual, credo, raça ou condição sócio-econômica, sejam vistas, respeitadas e tratadas com igvualdade.
Mato Grosso do Sul tem 1,8 milhão de votantes. E mais de 53% são mulheres. Porém, elas são absurdamente grandes minorias na representação política do Legislativo e Executivo, nos cargos de chefia e liderança. São muito mal-pagas, com remuneração inferior, em relação a homens empregados em posições semelhantes.
Sofrem as diversas formas de violência e precisam de leis especiais, como a Maria da Penha, para que seus agressores sejam punidos. Por isso, é essencial a reflexão no Dia da Mulher. E mais essencial ainda que essa reflexão se materialize na atitude de toda a sociedade.
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